Fotos: Alexandre Belém

Escritor Gilvan Lemos

Escrevi um artigo sobre retratos de escritores. O texto saiu no Pernambuco – Suplemento Cultural, deste mês. O editor da publicação, Schneider Carpeggiani, me pediu uma analise de alguns retratos publicados no jornal nos últimos meses.

Artigo em PDF: você insiste em criar vínculos

Versão Flip do Suplemento.

Trecho do artigo:

“Se lermos e adentramos nos enredos propostos por determinado escritor, sua imagem será impregnada pelo fenômeno que subliminarmente cria uma norma, um corpo para o escritor. Quiçá não seja a mais justa das projeções sobre o outro. O sujeito que idealizamos e que num fluxo inverso inventamos enquanto personagem. Contudo, estamos capitulando o nível da imaginação que codifica elementos da poesia, da prosa, do romance, da ficção ou do realismo, das epistemologias, das narrativas e de atmosferas poéticas autorais. O indivíduo que escreve reconfigura-se, traz a catarse de sua alma para outros níveis (simbólico, alegórico e camaleônico). Clarice Lispector, mulher-escritora, vocifera no meu ouvido angústias, dor, leveza e beleza a cada página. O espírito do olho propõe a Clarice e não a Lispector.”

Poeta Marcus Accioly

Poetisa Lucila Nogueira

Foto: Mario Cravo Neto

Criança com Balão, 1990

Texto publicado originalmente no blog Olhavê = http://www.olhave.com.br/blog/?p=2971

Mundo feérico, imaterial, orgânico e sublime

por Georgia Quintas

Há textos que não deveriam ser escritos. O peso das palavras, em alguns momentos, é mais doloroso do que apenas só receber uma notícia e tentar superá-la. A possibilidade de ausência, do nada, do vazio é conseqüência da vida. Mas, quem sabe domá-los?

Mario Cravo Neto se foi.

Revendo na memória, a obra de Mario Cravo Neto é categórica. Seu trabalho não trata da realidade que nos cerca, mas do simbolismo da vida. Suas buscas fotográficas possuem uma iconoclastia, uma ruptura em desvelar o real. E, portanto, Cravo Neto era um criador de imagens e de mundos. A fotografia era o amálgama que norteava seu fluxo criativo. Dirigir seus personagens em um estúdio era revelar um jogo de performance, de rito, de símbolos espirituais evocados com a força de suas composições. Homem, bicho, elementos escultóricos, máscaras, pó, vestígios…

A fotografia de Mario Cravo Neto não é fácil. Prima por uma elegância retórica não verbal. A profusão de suas imagens é um mar de significados. Precisa-se de templo para contemplá-la, estreitar laços de percepção, digeri-la e encontrá-la. Afinal, Mario Cravo Neto rompe com a ontologia da imagem fotográfica. Faz das idéias seu vôo rasante pela realidade comum, mas surpreendentemente consegue com sua estética mitificá-la e, portanto, reconduz o tal índice, em fragilidade documental. A essência da fotografia é signo enquanto fio condutor de narrativas simbólicas que dialogam com outros grandes artistas que “bebiam” da fonte religiosa africana da Bahia. Tem sim, elementos do Candomblé, mas de um Candomblé singular, resignificado pelo interesse e respeito de Cravo Neto pelo tema.

O que dizer das fotografias Pelourinho, África III, Criança Voodoo, só para citar algumas. Sim, uma que particularmente, me inquieta e que é simples e solene: Aura Mazda. Me faz conexões bem próximas com o surrealismo de fotógrafos mexicanos. O material de Mario Cravo Neto da década de 1980 e 1990 é especialmente deslumbrante e misterioso.

Desde há muito, as artes visuais congrega linguagens e põe a fotografia como expressão de destaque. Vale lembrar que também, desde há muito Mario Cravo Neto, escultor e desenhista tratou de trabalhar a fotografia como criação artística. Premiado e reconhecido internacionalmente, participou de cinco Bienais Internacionais de São Paulo e era filho de Mario Cravo Júnior, grande escultor e desenhista.

Revejam as imagens deste fotógrafo. Elas são “cortantes”, driblam questões comuns do retrato, propõe questionamentos sobre identidade… Bom, um mundo feérico, imaterial, orgânico e sublime. Assim é a obra do Cravo Neto.

Texto publicado originalmente no blog de Clicio Barroso = http://clicio.wordpress.com/2009/07/06/nas-sombras-de-um-sonho/

Nas sombras de um sonho

por Georgia Quintas

Sempre há uma satisfação, quando podemos ter em nossa biblioteca um livro que fale sobre fotografia. As edições teóricas sobre fotografia são discretas. Desse modo, Nas Sombras de um Sonho, de Claudio Marra é uma obra a se desfrutar por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque trata da temática da moda na fotografia (ou poderia ser o inverso, a fotografia na moda). E é nesse aspecto que o autor estrutura a linha imaginária de condução de suas análises, pesquisas e formulações teóricas. Claudio Marra desmistifica e emerge para o plano da ponderação o quão à moda fora e é significativa para a linguagem e expressão fotográfica.

Podemos acompanhar a “aula” que o autor nos proporciona, através do texto de estilo leve e bastante claro, desvelando as várias maneiras que grandes fotógrafos conduziram suas carreiras ao trabalharem com fotografias de moda.

Claudio Marra elenca alguns dos baluartes que travaram com esse universo imagético possibilidades de autenticidade no âmbito da criação artística. Ou seja, o livro ratifica uma questão instigante, que para muitos é observada de soslaio, sobre o valor da fotografia de moda. Nesse ponto, Marra aborda questões fundamentais sobre a história da fotografia por esse viés.

Cai assim por terra o estigma de superficialidade e banalidade que ronda (às vezes veladamente, outras vezes nem tanto) a produção dos fotógrafos de moda. Para os profissionais que passam por esta crise, o livro exorciza tais fantasmas e serve como terapia intensiva de como o olhar de cada um pode conduzir as relações entre realidade e aparência, moda enquanto expressão social e cultural e construção de identidade.

Ao conjugar semiótica e fundamentações teóricas de grandes autores que refletiram sobre a fotografia, Marra revela a complexidade do fazer fotográfico. Por mais que seja fruto de uma demanda, de uma linha editorial, de um costureiro, das “linhas” e formas de um simples vestido, o fotógrafo detém o ofício e sua idiossincrasia. O mecanismo resolutivo entre esses dois pontos pode vir a constituir rupturas, deslocamentos e soluções poéticas contundentes.

O que dizer de grandes mestres que escreveram seus nomes na história da fotografia: Richard Avedon, Edward Steichen, Man Ray, Muncaksi? Em Nas Sombras de um Sonho, encontramos a história e as considerações oportunas e didáticas para além do gostar aparente.

O livro de Claudio Marra é mais uma prova que a fotografia de moda é respeitável, vívida, simbólica e profunda.

Héctor Mediavilla

13/09/2009

Foto: Héctor Mediavilla

Texto publicado originalmente no blog Olhavê = http://www.olhave.com.br/blog/?p=2964

A fotografia compartilhada de Héctor Mediavilla

por Georgia Quintas

O trabalho “Elevadoristas” do fotógrafo Héctor Mediavilla é norteado por nostalgia e candura singulares. Em princípio, este ensaio – que pode ser visto no Flickr do Paraty em Foco – mostrou-se como uma proposição enlevada a algo bem próximo da memória social. São retratos decompostos, duplos pela edição equilibrada de Mediavilla em apresentar seu ensaio em imagens dípticas. Portanto, em cada fotografia a história documentada discorre sobre o retratado e seu espaço de pertencimento social. Os ascensoristas já fazem parte do nosso imaginário das profissões que conhecemos, mas que a modernidade achata-os ao ponto de torná-los bem raros em nossa sociedade.

Entramos e saímos. Aproximamo-nos e nos distanciamos. Tudo a partir do ínfimo limite do elevador e dos tempos que se entrelaçam em estar-se dentro ou fora deles. No interior destes elevadores, os protagonistas de Mediavilla são serenos em seu ofício. Alguns, cartesianamente organizam sua “estadia” na hermética condição de suas profissões e vários objetos representam bem mais do que supomos serem curiosidades. Ao contemplar tais detalhes, vemos os índices da imagem emanarem a vida de cada um dos indivíduos fotografados. A jovem ascensorista se maquia e sua delicadeza se reflete na revistinha de vendas da Avon, estrategicamente posta em sua bancada de trabalho para futuros interessados. As televisões, a manta e as roupas de frio também são aspectos a considerar dentro desse fabuloso universo imagético documentado por Mediavilla.

O fato fotográfico escolhido pelo fotógrafo é substancialmente antropológico e não é preciso ser antropólogo para converter o conteúdo temático em documento social. No entanto, é a maneira como o fotógrafo faz isso que determina este estado. O ensaio pelo qual nos deleitamos descreve o outro em seus próprios aspectos de vida enquanto profissão. Mas é a forma como Mediavilla conduz seu envolvimento ao fotografar o outro, que atesta a tal candura que sentimos enfatizada na primeira linha deste texto. Quando isso ocorre, percebemos o respeito, a solidariedade e honestidade com relação ao outro. Não se constitui em “tirar” a fotografia, mas relacionar-se através dela com o retratado.

Quando há esse compartilhamento, o registro visual é próximo, contorciona-se no corpo do outro. O campo visual torna-se, portanto, lugar de preenchimento simbólico de ambas as partes desse processo: autor e fotografado. A força poética que constatamos das representações visuais perfazem esse percurso da convivência, de compartilhar o memento do fazer fotográfico e da fruição inexorável da troca. De imediato, ao me envolver com os Elevadoristas, me lembrei de grandes mestres do uso da imagem no campo da antropologia, são eles: Jean Rouch e Sol Worth. O primeiro adepto do cinéma partagé nos ensinou que imparcialidade não existe e a graça e riqueza do discurso etnográfico está em descobrir o outro com o outro. Já Sol Worth vislumbrou a quintessência disto tudo ao definir a fotografia como símbolo das interações humanas.

Portanto, os elevadores (lugares de transitoriedade, efêmeros em sua função) configuram-se em um limbo de solidão, de esgarçamento de um tempo que se entra e que se sai. Ficam na memória, a partir do olhar de Mediavilla, as pessoas que delineiam os símbolos de uma vida vivida em pequenas “caixas” que sobem e descem.

Entrevista com Héctor Mediavilla no blog do 5º Paraty em Foco.

O artista gráfico Pojucan resgatou a iconografia dos sorrisos de Carmen Miranda em exposição chamada “Sorrisos de Carmen”, no Espaço Sesc do Sesc Rio de Janeiro. A exposição começa no dia 28 de julho até o dia 20 de setembro e as fotos antigas fazem parte do acervo do Museu Carmen Miranda.

Tive o prazer de escrever o texto de apresentação – do catálogo e exposição – à convite deste criativo artista e designer. Abaixo, coloco o texto.

As Facetas de um Sorriso

Não se trata de uma boca qualquer. Mas sim, de Carmen, a Miranda. Faz parte de nossa memória imagética. A boca bem marcada pelo batom vibrante e avassalador tornou-se o ícone daquela mulher. O riso performático, rasgado e onipresente nos registros fotográficos converte-se em símbolo, jorra-nos uma série de significados. Parte desse sorriso esfuziante nos aproxima da persona (do lado visível da artista), em contraponto a tal singularidade, essa mesma boca nos envolve e nos coloca diante de uma representação visual de extrema subjetividade.

Os retratos de Carmen Miranda denotam muito mais do que um simples registro fotográfico da artista. A expressão feminina é tematizada através da força plástica dos lábios. Carmen Miranda criou e tornou o seu sorriso em código a serviço de sua arte. E, portanto, estabeleceu uma fusão entre a boca que vira ícone – de seu tempo, de suas conquistas e vicissitudes – e a simbologia que dela apreendemos. De uma simples gestualidade, a figura emblemática de Carmen Miranda nos envolve além de tal recorte temático. Essa mesma boca tão expressiva é passível das sutilezas de todo um contexto sócio-cultural que a dimensiona como símbolo feminino de extenso vigor para toda uma geração.

Nunca esqueceremos o sorriso de Carmen. Trata-se de uma relação de imaginário, algo pessoal, tropical, alegórico e sensorial. Como assim o foi para Pojucan. As criações deste artista tensionam um mar de sentidos. Pojucan inspira-se, apropria-se de belos retratos para estabelecer a singularidade do seu olhar. Desse modo ele restaura uma vida, um passado, uma história e constrói outras perspectivas para nós. As imagens de Pojucan trazem a latência refinada das coisas sensíveis que provêm da inspiração. Sugestionam determinada vibração cromática que nos revela o olhar contemporâneo e feérico a partir dos retratos em preto e branco.

A boca segue como tema. Não menos vigorosa, porém mais apurada pelo recorte fechado da composição. Na visualidade criativa do artista podemos sentir certo movimento às imagens. Pojucan extrai a essência do sorriso de Carmen Miranda numa espécie de miríade através da qual podemos celebrá-la, contemplá-la, mas, sobretudo, resgatá-la do passado. Já não é mesma boca que havia descrito no primeiro parágrafo. Agora, ela sofrera uma ressignificação. Serão as das fotografias antigas e as da imaginação de Pojucan. E assim, reformulamos o nosso olhar ante a poética da simples boca de uma pequena grande mulher e suas ficções.

Evelyn Nesbit, 1903

Foto: Gertrude Käsebier (1852-1934)

A epiderme do espírito

Ultimamente, os retratos que impregnam o nosso entorno visual tendem a embaçar o olhar e provocam uma sensação de falta de profundidade. Aqui, o sentido profundo vai além da perspectiva pictórica. É sobre a fruição a que me refiro. Cada vez mais, tento encontrar na fotografia de corpo, retratos que expurguem o prosaico e que mostrem o outro de maneira contundente suas próprias representações. Em essência, a identidade que emana do corpo não está apenas nele. Os retratos fotográficos, desde sempre, são sintomáticos. A individualidade que se projeta na fotografia respira inefavelmente em nós, na nossa relação com o próprio meio que intermedia as representações. A pose permitida é transfiguração, auto-referência de desejos muito próprios, às vezes bem pessoais, outros de caráter social. Então, onde está o mimetismo? Na certeza, de que o que vemos é real. Porém, uma realidade que não passa de simulacro, de uma narrativa bidimensional. E filosoficamente, isso faz toda a diferença.

O surgimento da técnica fotográfica reconduziu uma maneira de ver e de ser visto. Não apenas isso, revelou uma linguagem própria complexa em suas idiossincrasias estéticas e simbólicas. Em parte, o fator mecânico e sua indiscutível natureza indiciária, de veracidade especular, em muitos momentos estiveram atrelados a propósitos científicos questionáveis como na fotografia antropométrica. Os retratos realizados por uma série de fotógrafos na Europa do século XIX consideravam a fisionomia a resposta ideal e normativa para determinados argumentos. Com base no cientificismo, o objetivo era classificar aspectos da criminologia e psiquiatria; assim como, dar conta de questões antropológicas relacionadas à raça em momentos de colonialismo. Historicamente, retratar as pessoas através da técnica fotográfica sempre teve intencionalidades bem definidas. Embora, seja definitivo o conceito de identidade, os retratos ao longo do processo do olhar fotográfico revelam particularidades sociais e culturais.

No entanto, o corpo se libertou. Houve trabalhos que trilharam as nuances que a linguagem fotográfica exerce no âmbito da criação artística. Podemos encontrar exemplos clássicos e contundentes – ainda no auge da moral que se exigia do comportamento e das atitudes femininas do final do século XIX – de que a imagem que se quer de si e para o outro é uma construção ad infinitum. O que envolve algumas rupturas da representação da identidade corporal, sobretudo, feminina. Como no caso da Condessa de Castiglione (1837-1899) que em meados do século XIX, protagonizou retratos ousados, mas, principalmente, comprometedores para quem os possuísse. E o que dizer dos fabulosos retratos de mulheres no estúdio francês Reutlinger (1850-1924) ou de Paul Nadar? A força plástica de tais imagens denota que os trejeitos contidos em trajes sufocantes gostariam de expressar algo mais. Então, se percebe que o ocultamento é muito mais inspirador. Daí, os clichês serem sempre o lugar comum que torna a nudez gratuita e pueril.

Não há como negar que as convenções estilísticas dialoguem com parâmetros ideológicos. Conteúdo e forma são indissociáveis. Portanto, um dos períodos mais expressivos de representação artística do corpo foi a fotografia pictorialista. Nesse sentido, vale relembrar do trabalho da fotógrafa americana Gertrude Käsebier (1852-1934). Com sua ambigüidade pungente entre densidade e sutileza, deixou marcas no imaginário das cenas domésticas, de acordo com o estilo pictórico e os anseios de legitimar a fotografia como arte, no início do século XX.

As concepções sobre nudez e erotismo seguiram-se no universo da fotografia… Logo, a trajetória de registrar o corpo iniciou um processo de subjetividade, desprendendo-se do realismo. É preciso perceber que os estilos deságuam inevitavelmente em outras percepções. E assim, ocorreu uma ruptura determinante com relação ao romantismo e à sexualidade na história da representação corporal na fotografia. Chega-se ao surrealismo, movimento que dessacraliza a temática da nudez tornando a idéia do corpo em alegoria e meio para a vanguarda de então.

No entanto, nada é gratuito no que contemplamos, pois o que articula a mise en scène a ser capturada é o desejo de seduzir, de aproximar, provocar os sentidos do outro. A simbiose entre retrato e retratado alinhava uma relação simbólica cuja complexidade invade várias esferas. Ou seja, desde a memória afetiva familiar e doméstica até a vida íntima dos indivíduos. O ato de registrar referenda o corpo como texto discursivo. Há o processo, o conteúdo e a dinâmica metafórica da imagem. Portanto, fotografar o corpo é penetrá-lo na epiderme do espírito e não no banal ou no clichê. O êxtase está no momento e, em algumas imagens fotográficas, nem rosto possuem. O torpor provem da atmosfera imagética. Lembro-me de J.W. Goethe, em “Os sofrimentos do jovem Werther”, que diz: “Falta-me o fermento que agitava, movia a minha vida; desapareceu o encantamento que me mantinha desperto a altas horas da noite, que de manhã me despertava do sono”. Ver um corpo fotografado pode ser isto. Como também, ter a sensação do vigor e do momento feérico entre a captura de um olhar sob o encanto sensível do corpo a sua frente.

PDF do texto:  a epiderme do espirito

Acervo da Fundação Joaquim Nabuco

Fernando Simões Barbosa com ama de leite
Eugenio & Mauricio
Recife, c.1860-1869

Foi publicado um artigo que escrevi na RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção. A publicação pertence ao
GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções.

O artigo é sobre a presença das amas de leite nas fotografias da aristocracia pernambucana.

Para ler o artigo, tem o PDF neste link.

Foto: Minor White, Windowsill Daydreaming, 1958

Artigo publicado hoje na seção de Opinião do Jornal do Commercio. Também coloco o PDF da página para os interessados em baixar.

PDF: o-que-mais-fotografar_13nov2008

O que mais fotografar? 

         A imagem fotográfica é um jogo de visão de mundo e imaginação. E nisto reside toda a complexidade de quem capta e a apreende visualmente. Pois, se ela é o registro de um tempo e de um espaço, de objetos ou pessoas, será irremediavelmente memória de expressão cultural e de significado simbólico. Ou seja, ela também poderá ser tudo e nada. A dimensão subjetiva da fotografia se dá entre o real e a ficção, entre a realidade visível e a construção de um novo realismo, e tudo isso pode vir a ser muito surreal. Não falo do surrealismo enquanto estilo artístico, mas sim, da realidade movediça que se apresenta concreta enquanto índice visual. O que vemos a partir da imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar.

         Por certo, a fotografia documental reafirma a realidade. Mas não só isso, ao reconduzir o real, uma nova dimensão perceptiva se coloca diante de nós. Sem dúvida, a superfície da imagem é a representação da coisa em si, sua quintessência; entretanto, ela é também, muito além da questão do tempo inerente à natureza fotográfica, intensidade, reciprocidade, atitude, a força do hábito e das idéias de quem faz a imagem fotográfica existir. Se tudo já foi fotografado e o nosso entorno é passível de registro, se as temáticas são recorrentes e os gêneros fotográficos (como o fotojornalismo) inexoráveis, o que fazer ainda através da fotografia?

         A resposta está na autenticidade. Chegar a ela é refutar o lugar-comum, exercitar a experimentação e dialogar com o que já se produziu até então. De modo, que é preciso reconhecer o poder sensível das coisas e dos fotógrafos. Não há nada mais sugestivo e envolvente do que observarmos a subjetividade de criação de quem fotografa. São os estilos estéticos que delineiam a identidade autoral das imagens fotográficas. Nesse sentido, a escolha de um tema e a forma como desenvolvê-la irão criar um repertório de significados para o olhar do outro de maneira mais efetiva, penetrante, ou não. Ao falarmos de estilos, várias foram as perspectivas de apropriação de temáticas comuns aos fotógrafos. Em outros termos: soluções técnicas habilidosas, possibilidades estéticas geniais e poéticas desafiadoras.

         A idéia e a técnica são vetores fundamentais à fotografia, mas há de se pensar em como captar o seu entorno. E para tanto, é preciso ser fiel e autêntico a sua própria acuidade perceptiva e, paradoxalmente, também desconfiar sempre dela. O olhar de quem fotografa tem grande possibilidade de promover armadilhas e banalizar-se, de deixar-se acomodar pela prática e seus mecanismos técnicos. Cabe lembrar que os artifícios da câmera (seja analógica ou digital) são os meios para que seja possível expressar-se através da linguagem fotográfica. O resto é pura consciência crítica e compromisso em desvelar novos caminhos para nossa contemplação. É reconfortante lembrar as palavras do filósofo Maurice Merleau-Ponty: “O espírito do mundo somos nós, a partir do momento em que sabemos mover-nos, a partir do momento em que sabemos olhar”.

         Desde sempre a expressão fotográfica instaurou novos parâmetros estéticos. Na intencionalidade em fotografar, pode-se vislumbrar muitas respostas para isso. Assim, nunca fomos ou seremos onipotentes ao fazer fotográfico. A profusão desta linguagem (seja ela artística, documental ou fotojornalística) revela-se ao transcodificar os signos e convertê-los em algo imperceptível na realidade, reconduzindo esta mesma realidade para o plano imaginário do irreal, improvável e desconcertante. Será nessa nova perspectiva que nos encontraremos. Certo está o fotógrafo Duane Michals quando disse: “Eu sou um reflexo fotografando outros reflexos com seus reflexos… Fotografar a realidade é fotografar o nada”. Sempre foi o momento de surpreender o outro e a si próprio.

Theodore De Bry | Matando o prisioneiro | 1592

Publiquei um artigo científico na Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. O artigo se chama Antropofagia: As várias dimensões antropológicas.

Para ler o artigo no site da Fênix é aqui. Abaixo, coloco o PDF que contém as imagens.

antropofagia-as-varias-dimensoes-antropologicas

Sofá

06/10/2008

©Cia de Foto

- “Por favor, pode entrar… Sente-se!”, disse-me uma voz.

Não importa de quem tenha sido esta voz… Só sei que entrei, mas não sentei. Preferi olhar, sentir o espaço, me acomodar de outra maneira.

Havia um simples sofá… Vazio. Sem códigos prosaicos que insinuasse sua utilidade. Apenas um lugar para sentar-se ou colocar-se em estado de letargia. Lugar de espera (delimitado num cômodo doméstico) de que coisas aconteçam, da iminência cúmplice de ser objeto inanimado que presencia a história de certa vida familiar. Repousam apenas: um brinquedo, almofadas ao léu, um saco plástico esquecidos…

Mas aquele sofá me causava certa afinidade. Seria uma espécie de “sofá-símbolo”, imagem inconteste da memória. Do sentar-se para partilhar a vida, ou mesmo para descansar dela.

E fora dos seus contextos domésticos habituais, o que pensar de seu deslocamento espacial? Total sentimento de hiato quando um sofá é visto abandonado na rua e nós, transeuntes, ao olhá-lo perdemos o chão. Surge um incômodo. Torna-se assim, lembrança afetiva de algo que nos representa um significado íntimo, da sua vida, do seu imaginário familiar.

A luz esmaecida que provém daquele sofá “abraça” o olhar, transporta o espírito. A imagem que faço dele é bastante sensorial. Pois, o vazio é apenas paradoxo. O volume de um possível corpo infantil tensiona a composição centralizada (quase claustrofóbica) e a estabilidade matérica do móvel. E não interessa saber quem se esconde. Me inflexiona o volume e suas adjacências – a cena cotidiana de uma família e seus tempos. Não somente o instante que meu olho fixa a imagem. Mas o que se aprisionou nela e a apropriação de quem se relaciona com a cena. Enfim, dos sentidos sublimados pelo sofá e do volume nonsense de um corpo de criança velado por ele.

Não significa muito se entrei naquela suposta sala, se meu corpo vivenciou. O valor, como diria o fotógrafo Brassaï, está na autenticidade do instante. A fotografia impregnada do outro passa a ser minha e de meus sentidos. Imagem é alteridade e só será percebida por quem queira vê-la. O fator essencial para tudo isso é sentir, não só pela visão. Mas, sobretudo, de ir mais além. Como no meu caso, de ouvir a voz do meu arcabouço simbólico e entrar silenciosamente (respeitando o tempo do meu olhar) pela atmosfera rarefeita de um singelo sofá.