Mundo feérico, imaterial, orgânico e sublime
13/09/2009

Foto: Mario Cravo Neto
Criança com Balão, 1990
Texto publicado originalmente no blog Olhavê = http://www.olhave.com.br/blog/?p=2971
Mundo feérico, imaterial, orgânico e sublime
por Georgia Quintas
Há textos que não deveriam ser escritos. O peso das palavras, em alguns momentos, é mais doloroso do que apenas só receber uma notícia e tentar superá-la. A possibilidade de ausência, do nada, do vazio é conseqüência da vida. Mas, quem sabe domá-los?
Mario Cravo Neto se foi.
Revendo na memória, a obra de Mario Cravo Neto é categórica. Seu trabalho não trata da realidade que nos cerca, mas do simbolismo da vida. Suas buscas fotográficas possuem uma iconoclastia, uma ruptura em desvelar o real. E, portanto, Cravo Neto era um criador de imagens e de mundos. A fotografia era o amálgama que norteava seu fluxo criativo. Dirigir seus personagens em um estúdio era revelar um jogo de performance, de rito, de símbolos espirituais evocados com a força de suas composições. Homem, bicho, elementos escultóricos, máscaras, pó, vestígios…
A fotografia de Mario Cravo Neto não é fácil. Prima por uma elegância retórica não verbal. A profusão de suas imagens é um mar de significados. Precisa-se de templo para contemplá-la, estreitar laços de percepção, digeri-la e encontrá-la. Afinal, Mario Cravo Neto rompe com a ontologia da imagem fotográfica. Faz das idéias seu vôo rasante pela realidade comum, mas surpreendentemente consegue com sua estética mitificá-la e, portanto, reconduz o tal índice, em fragilidade documental. A essência da fotografia é signo enquanto fio condutor de narrativas simbólicas que dialogam com outros grandes artistas que “bebiam” da fonte religiosa africana da Bahia. Tem sim, elementos do Candomblé, mas de um Candomblé singular, resignificado pelo interesse e respeito de Cravo Neto pelo tema.
O que dizer das fotografias Pelourinho, África III, Criança Voodoo, só para citar algumas. Sim, uma que particularmente, me inquieta e que é simples e solene: Aura Mazda. Me faz conexões bem próximas com o surrealismo de fotógrafos mexicanos. O material de Mario Cravo Neto da década de 1980 e 1990 é especialmente deslumbrante e misterioso.
Desde há muito, as artes visuais congrega linguagens e põe a fotografia como expressão de destaque. Vale lembrar que também, desde há muito Mario Cravo Neto, escultor e desenhista tratou de trabalhar a fotografia como criação artística. Premiado e reconhecido internacionalmente, participou de cinco Bienais Internacionais de São Paulo e era filho de Mario Cravo Júnior, grande escultor e desenhista.
Revejam as imagens deste fotógrafo. Elas são “cortantes”, driblam questões comuns do retrato, propõe questionamentos sobre identidade… Bom, um mundo feérico, imaterial, orgânico e sublime. Assim é a obra do Cravo Neto.
Nas sombras de um sonho
13/09/2009

Texto publicado originalmente no blog de Clicio Barroso = http://clicio.wordpress.com/2009/07/06/nas-sombras-de-um-sonho/
Nas sombras de um sonho
por Georgia Quintas
Sempre há uma satisfação, quando podemos ter em nossa biblioteca um livro que fale sobre fotografia. As edições teóricas sobre fotografia são discretas. Desse modo, Nas Sombras de um Sonho, de Claudio Marra é uma obra a se desfrutar por vários motivos.
Em primeiro lugar, porque trata da temática da moda na fotografia (ou poderia ser o inverso, a fotografia na moda). E é nesse aspecto que o autor estrutura a linha imaginária de condução de suas análises, pesquisas e formulações teóricas. Claudio Marra desmistifica e emerge para o plano da ponderação o quão à moda fora e é significativa para a linguagem e expressão fotográfica.
Podemos acompanhar a “aula” que o autor nos proporciona, através do texto de estilo leve e bastante claro, desvelando as várias maneiras que grandes fotógrafos conduziram suas carreiras ao trabalharem com fotografias de moda.
Claudio Marra elenca alguns dos baluartes que travaram com esse universo imagético possibilidades de autenticidade no âmbito da criação artística. Ou seja, o livro ratifica uma questão instigante, que para muitos é observada de soslaio, sobre o valor da fotografia de moda. Nesse ponto, Marra aborda questões fundamentais sobre a história da fotografia por esse viés.
Cai assim por terra o estigma de superficialidade e banalidade que ronda (às vezes veladamente, outras vezes nem tanto) a produção dos fotógrafos de moda. Para os profissionais que passam por esta crise, o livro exorciza tais fantasmas e serve como terapia intensiva de como o olhar de cada um pode conduzir as relações entre realidade e aparência, moda enquanto expressão social e cultural e construção de identidade.
Ao conjugar semiótica e fundamentações teóricas de grandes autores que refletiram sobre a fotografia, Marra revela a complexidade do fazer fotográfico. Por mais que seja fruto de uma demanda, de uma linha editorial, de um costureiro, das “linhas” e formas de um simples vestido, o fotógrafo detém o ofício e sua idiossincrasia. O mecanismo resolutivo entre esses dois pontos pode vir a constituir rupturas, deslocamentos e soluções poéticas contundentes.
O que dizer de grandes mestres que escreveram seus nomes na história da fotografia: Richard Avedon, Edward Steichen, Man Ray, Muncaksi? Em Nas Sombras de um Sonho, encontramos a história e as considerações oportunas e didáticas para além do gostar aparente.
O livro de Claudio Marra é mais uma prova que a fotografia de moda é respeitável, vívida, simbólica e profunda.
Héctor Mediavilla
13/09/2009
Foto: Héctor Mediavilla
Texto publicado originalmente no blog Olhavê = http://www.olhave.com.br/blog/?p=2964
A fotografia compartilhada de Héctor Mediavilla
por Georgia Quintas
O trabalho “Elevadoristas” do fotógrafo Héctor Mediavilla é norteado por nostalgia e candura singulares. Em princípio, este ensaio – que pode ser visto no Flickr do Paraty em Foco – mostrou-se como uma proposição enlevada a algo bem próximo da memória social. São retratos decompostos, duplos pela edição equilibrada de Mediavilla em apresentar seu ensaio em imagens dípticas. Portanto, em cada fotografia a história documentada discorre sobre o retratado e seu espaço de pertencimento social. Os ascensoristas já fazem parte do nosso imaginário das profissões que conhecemos, mas que a modernidade achata-os ao ponto de torná-los bem raros em nossa sociedade.
Entramos e saímos. Aproximamo-nos e nos distanciamos. Tudo a partir do ínfimo limite do elevador e dos tempos que se entrelaçam em estar-se dentro ou fora deles. No interior destes elevadores, os protagonistas de Mediavilla são serenos em seu ofício. Alguns, cartesianamente organizam sua “estadia” na hermética condição de suas profissões e vários objetos representam bem mais do que supomos serem curiosidades. Ao contemplar tais detalhes, vemos os índices da imagem emanarem a vida de cada um dos indivíduos fotografados. A jovem ascensorista se maquia e sua delicadeza se reflete na revistinha de vendas da Avon, estrategicamente posta em sua bancada de trabalho para futuros interessados. As televisões, a manta e as roupas de frio também são aspectos a considerar dentro desse fabuloso universo imagético documentado por Mediavilla.
O fato fotográfico escolhido pelo fotógrafo é substancialmente antropológico e não é preciso ser antropólogo para converter o conteúdo temático em documento social. No entanto, é a maneira como o fotógrafo faz isso que determina este estado. O ensaio pelo qual nos deleitamos descreve o outro em seus próprios aspectos de vida enquanto profissão. Mas é a forma como Mediavilla conduz seu envolvimento ao fotografar o outro, que atesta a tal candura que sentimos enfatizada na primeira linha deste texto. Quando isso ocorre, percebemos o respeito, a solidariedade e honestidade com relação ao outro. Não se constitui em “tirar” a fotografia, mas relacionar-se através dela com o retratado.
Quando há esse compartilhamento, o registro visual é próximo, contorciona-se no corpo do outro. O campo visual torna-se, portanto, lugar de preenchimento simbólico de ambas as partes desse processo: autor e fotografado. A força poética que constatamos das representações visuais perfazem esse percurso da convivência, de compartilhar o memento do fazer fotográfico e da fruição inexorável da troca. De imediato, ao me envolver com os Elevadoristas, me lembrei de grandes mestres do uso da imagem no campo da antropologia, são eles: Jean Rouch e Sol Worth. O primeiro adepto do cinéma partagé nos ensinou que imparcialidade não existe e a graça e riqueza do discurso etnográfico está em descobrir o outro com o outro. Já Sol Worth vislumbrou a quintessência disto tudo ao definir a fotografia como símbolo das interações humanas.
Portanto, os elevadores (lugares de transitoriedade, efêmeros em sua função) configuram-se em um limbo de solidão, de esgarçamento de um tempo que se entra e que se sai. Ficam na memória, a partir do olhar de Mediavilla, as pessoas que delineiam os símbolos de uma vida vivida em pequenas “caixas” que sobem e descem.
Entrevista com Héctor Mediavilla no blog do 5º Paraty em Foco.