Uma grande mulher
30/11/2008

Lee Miller fotografada por Man Ray em 1930

Lee Miller (sentada) fotografada por David E. Scherman em 1944
Lee Miller em 1930 era uma modelo já famosa. Foi namorada de Man Ray e, com ele, aprendeu e começou a fotografar. Anos depois, era fotógrafa de guerra da revista Life.
Sobre o acervo fotográfico da revista Life, clique aqui.
Man Ray no Fotosite
22/11/2008
O meu livro Man Ray e a Imagem da Mulher - A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas recebeu uma análise do fotógrafo e crítico de fotografia Juan Esteves. Saiu esta semana no Fotosite.
Abaixo, coloco a resenha:
♦Juan Esteves
MAN RAY E A IMAGEM DA MULHER – 19/11/08
Protagonista de vários movimentos artísticos, Man Ray morreu em 1976 quando já estava com 86 anos de idade. Como alguns de seus contemporâneos – Cartier-Bresson (1908-2004) ou Helmut Newton (1920-2004) – que legaram à fotografia os fundamentos que, até hoje, nos esfregam impiedosamente a busca de novidades, este americano da Filadélfia, nascido Emmanuel Radnitzky, não deixou por menos, e além da imagem fotográfica, produziu para cinema, escultura, pintura e literatura.Entre suas imagens, colagens, transformações fotográficas no laboratório, filmes que experimentavam o movimento da imagem fixa, e seus escritos, a antropóloga recifense e professora de fotografia Georgia Quintas foi buscar na imagem feminina gerada por Man Ray, o motivo de sua monografia de conclusão de curso de Pós-Graduação em História da Arte, de 1998, pela Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP-SP). A conclusão foi publicada em livro, com edição da própria autora.
Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca, na região castelhana da Espanha, Georgia Quintas alerta, já na introdução, que manteve o estilo e a estrutura de seu texto original, apesar de se tratar de uma pesquisa acadêmica. Sua idéia é que as informações contidas no livro possam servir a possíveis pesquisadores. Tal modo, na verdade, não interfere na prazerosa leitura, pois seu tema é uma garantia contra o aborrecimento, mesmo com capítulos cujo título menciona “influências sincrônica e diacrônica”, que, convenhamos, não é muito animador para alguém não familiarizado com as articulações acadêmicas.
A pesquisadora alerta também para intervalo de dez anos entre a conclusão e a publicação do livro, motivo pelo qual, para não perder a perspectiva original, a mesma não atualizou a bibliografia. Novamente, em que pese algumas mudanças significativas na arte mundial nesta última década, a análise permanece contundente e muito interessante, e particularmente ao tema, as modernidades da imagem não afetam o conteúdo gráfico ou conceitual do grande artista, cuja produção sempre superou as barreiras dos modismos e outros “ismos”.
Depois de uma breve apresentação do artista, Quintas se encarrega de salientar em sua obra a união da reflexão ao procedimento técnico, bem como, a influência de movimentos como o Dada e o Surrealismo, e suas implicações com o rompimento de certos arquétipos de então. A abordagem se passa na Europa na primeira década do século 20, o que uniria a sua produção a outras vertentes, notoriamente sua amizade com outro artista genial, o francês Marcel Duchamp (1887-1968). A autora se vale de observações do filósofo e crítico de arte Philipe Sers e do professor da Universidade de Paris (Sorbonne Novelle) Philippe Dubois, que alimentam sua digressão.
Ao trabalhar as reflexões do artista sobre pintura e fotografia, surge inexoravelmente – e necessariamente – a idéia atribuída a um de seus manifestos: fotografar o que não se pode pintar e pintar o que não pode ser fotografado. Bem como, declarações que resultaram em pregações, como a rejeição da fotografia como forma de arte verdadeira. A autora cita o artigo de 1943, escrito por ele: “Fotografia não é arte”. Por este viés, os dez anos entre a conclusão da monografia e a publicação deste livro não mudam sua contribuição para uma pertinente discussão imediata.
Associar Barthes e seu Studium (Camera Lucida) a uma cuidadosa e detalhada sintaxe que o artista buscava, revela um cuidado à parte da autora em certas associações, cuja notícia está mais distante do discurso laudatório e mais próxima de uma explicação da gênese de certas semelhanças que podemos encontrar na obra de Man Ray e de seus contemporâneos mais arrojados, como George Braque ou Pablo Picasso. A idéia proposta nos conduz ao reconhecimento do artista não de maneira quimérica, e sim, mais pragmática, sem deixar de vê-lo como um visionário.
Entre exemplos buscados para a representação de Man Ray como alguém que se expressa mais interiormente do que externamente, a autora comenta imagens de Kiki de Montparnasse, Lee Miller, Meret Oppenheim, Coco Chanel e Juliet, a última companheira e modelo do artista. Para a autora, Man Ray faz composições próximas das encontradas ao longo da história da arte, buscando uma idéia de pureza e solenidade, através do olhar e da postura.
Outros detalhes de sua abordagem anotam a simplicidade no jogo entre positivo e negativo de suas imagens e as inúmeras possibilidades que emanam de suas características técnicas, bem como, a utilização da fotomontagem na idéia fashion, outros efeitos, como solarização e efeitos gráficos que remetem a experiências pictorialistas. Para a autora: “O mote principal de Man Ray resumiu-se em adquirir uma arte própria, trabalhando com persistência contra imposições estéticas.”
Outro ponto em favor da autora é trazer alguns pensadores como os italianos Benedetto Croce (1866-1952) e Giulio Carlo Argan (1909-1992) para uma discussão fotográfica, além das figuras carimbadas da Academia como Roland Barthes(1915-1980) e Susan Sontag (1933-2004) que parecem pulular nos tratados nacionais. Também prestigia os pensadores cariocas como o antropólogo Milton Guran e o pesquisador Pedro Karp Vasquez, além do fotógrafo Boris Kossoy e do filósofo Nelson Brissac Peixoto, ambos paulistanos.
À conclusão do livro soma-se o pensamento geral de que a fenda produzida pelo artista é bem funda e até hoje, de certa forma, desnorteia por sua perene contemporaneidade. Também é uma importante sugestão para que nossos acadêmicos comecem a pensar com mais intensidade sobre os equivalentes brasileiros – nossos chamados modernistas – que produziram muito e de maneira sincrônica, sobre a questão da imagem da mulher, e que estão, absurdamente, a merecer amplos e detalhados estudos. Como os demais livros oriundos das academias brasileiras, as ilustrações carecem de qualidade, mas estão na média dos congêneres.
Em suas memórias (Self Portrait Man Ray, Little Brown,1963-Bulfinch, 1998), publicadas treze anos antes de sua morte, o artista se queixava que seus modelos femininos achavam que suas imagens pareciam inacabadas. Man Ray, apesar da incompreensão constante, no entanto, dizia que tinha aprovação de seus pares. Infelizmente essa “autobiografia”, que traz outros pensamentos sobre a questão da mulher, não está na bibliografia anotada, o que poderia ser um plus nesta interessante edição, que sem dúvida leva aos leitores brasileiros mais compreensão sobre um dos mais importantes artistas do século 20.
O que mais fotografar?
13/11/2008

Foto: Minor White, Windowsill Daydreaming, 1958
Artigo publicado hoje na seção de Opinião do Jornal do Commercio. Também coloco o PDF da página para os interessados em baixar.
PDF: o-que-mais-fotografar_13nov2008
O que mais fotografar?
A imagem fotográfica é um jogo de visão de mundo e imaginação. E nisto reside toda a complexidade de quem capta e a apreende visualmente. Pois, se ela é o registro de um tempo e de um espaço, de objetos ou pessoas, será irremediavelmente memória de expressão cultural e de significado simbólico. Ou seja, ela também poderá ser tudo e nada. A dimensão subjetiva da fotografia se dá entre o real e a ficção, entre a realidade visível e a construção de um novo realismo, e tudo isso pode vir a ser muito surreal. Não falo do surrealismo enquanto estilo artístico, mas sim, da realidade movediça que se apresenta concreta enquanto índice visual. O que vemos a partir da imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar.
Por certo, a fotografia documental reafirma a realidade. Mas não só isso, ao reconduzir o real, uma nova dimensão perceptiva se coloca diante de nós. Sem dúvida, a superfície da imagem é a representação da coisa em si, sua quintessência; entretanto, ela é também, muito além da questão do tempo inerente à natureza fotográfica, intensidade, reciprocidade, atitude, a força do hábito e das idéias de quem faz a imagem fotográfica existir. Se tudo já foi fotografado e o nosso entorno é passível de registro, se as temáticas são recorrentes e os gêneros fotográficos (como o fotojornalismo) inexoráveis, o que fazer ainda através da fotografia?
A resposta está na autenticidade. Chegar a ela é refutar o lugar-comum, exercitar a experimentação e dialogar com o que já se produziu até então. De modo, que é preciso reconhecer o poder sensível das coisas e dos fotógrafos. Não há nada mais sugestivo e envolvente do que observarmos a subjetividade de criação de quem fotografa. São os estilos estéticos que delineiam a identidade autoral das imagens fotográficas. Nesse sentido, a escolha de um tema e a forma como desenvolvê-la irão criar um repertório de significados para o olhar do outro de maneira mais efetiva, penetrante, ou não. Ao falarmos de estilos, várias foram as perspectivas de apropriação de temáticas comuns aos fotógrafos. Em outros termos: soluções técnicas habilidosas, possibilidades estéticas geniais e poéticas desafiadoras.
A idéia e a técnica são vetores fundamentais à fotografia, mas há de se pensar em como captar o seu entorno. E para tanto, é preciso ser fiel e autêntico a sua própria acuidade perceptiva e, paradoxalmente, também desconfiar sempre dela. O olhar de quem fotografa tem grande possibilidade de promover armadilhas e banalizar-se, de deixar-se acomodar pela prática e seus mecanismos técnicos. Cabe lembrar que os artifícios da câmera (seja analógica ou digital) são os meios para que seja possível expressar-se através da linguagem fotográfica. O resto é pura consciência crítica e compromisso em desvelar novos caminhos para nossa contemplação. É reconfortante lembrar as palavras do filósofo Maurice Merleau-Ponty: “O espírito do mundo somos nós, a partir do momento em que sabemos mover-nos, a partir do momento em que sabemos olhar”.
Desde sempre a expressão fotográfica instaurou novos parâmetros estéticos. Na intencionalidade em fotografar, pode-se vislumbrar muitas respostas para isso. Assim, nunca fomos ou seremos onipotentes ao fazer fotográfico. A profusão desta linguagem (seja ela artística, documental ou fotojornalística) revela-se ao transcodificar os signos e convertê-los em algo imperceptível na realidade, reconduzindo esta mesma realidade para o plano imaginário do irreal, improvável e desconcertante. Será nessa nova perspectiva que nos encontraremos. Certo está o fotógrafo Duane Michals quando disse: “Eu sou um reflexo fotografando outros reflexos com seus reflexos… Fotografar a realidade é fotografar o nada”. Sempre foi o momento de surpreender o outro e a si próprio.
