A epiderme do espírito

Junho 18, 2009 by gquintas

Evelyn Nesbit, 1903

Foto: Gertrude Käsebier (1852-1934)

A epiderme do espírito

Ultimamente, os retratos que impregnam o nosso entorno visual tendem a embaçar o olhar e provocam uma sensação de falta de profundidade. Aqui, o sentido profundo vai além da perspectiva pictórica. É sobre a fruição a que me refiro. Cada vez mais, tento encontrar na fotografia de corpo, retratos que expurguem o prosaico e que mostrem o outro de maneira contundente suas próprias representações. Em essência, a identidade que emana do corpo não está apenas nele. Os retratos fotográficos, desde sempre, são sintomáticos. A individualidade que se projeta na fotografia respira inefavelmente em nós, na nossa relação com o próprio meio que intermedia as representações. A pose permitida é transfiguração, auto-referência de desejos muito próprios, às vezes bem pessoais, outros de caráter social. Então, onde está o mimetismo? Na certeza, de que o que vemos é real. Porém, uma realidade que não passa de simulacro, de uma narrativa bidimensional. E filosoficamente, isso faz toda a diferença.

O surgimento da técnica fotográfica reconduziu uma maneira de ver e de ser visto. Não apenas isso, revelou uma linguagem própria complexa em suas idiossincrasias estéticas e simbólicas. Em parte, o fator mecânico e sua indiscutível natureza indiciária, de veracidade especular, em muitos momentos estiveram atrelados a propósitos científicos questionáveis como na fotografia antropométrica. Os retratos realizados por uma série de fotógrafos na Europa do século XIX consideravam a fisionomia a resposta ideal e normativa para determinados argumentos. Com base no cientificismo, o objetivo era classificar aspectos da criminologia e psiquiatria; assim como, dar conta de questões antropológicas relacionadas à raça em momentos de colonialismo. Historicamente, retratar as pessoas através da técnica fotográfica sempre teve intencionalidades bem definidas. Embora, seja definitivo o conceito de identidade, os retratos ao longo do processo do olhar fotográfico revelam particularidades sociais e culturais.

No entanto, o corpo se libertou. Houve trabalhos que trilharam as nuances que a linguagem fotográfica exerce no âmbito da criação artística. Podemos encontrar exemplos clássicos e contundentes – ainda no auge da moral que se exigia do comportamento e das atitudes femininas do final do século XIX – de que a imagem que se quer de si e para o outro é uma construção ad infinitum. O que envolve algumas rupturas da representação da identidade corporal, sobretudo, feminina. Como no caso da Condessa de Castiglione (1837-1899) que em meados do século XIX, protagonizou retratos ousados, mas, principalmente, comprometedores para quem os possuísse. E o que dizer dos fabulosos retratos de mulheres no estúdio francês Reutlinger (1850-1924) ou de Paul Nadar? A força plástica de tais imagens denota que os trejeitos contidos em trajes sufocantes gostariam de expressar algo mais. Então, se percebe que o ocultamento é muito mais inspirador. Daí, os clichês serem sempre o lugar comum que torna a nudez gratuita e pueril.

Não há como negar que as convenções estilísticas dialoguem com parâmetros ideológicos. Conteúdo e forma são indissociáveis. Portanto, um dos períodos mais expressivos de representação artística do corpo foi a fotografia pictorialista. Nesse sentido, vale relembrar do trabalho da fotógrafa americana Gertrude Käsebier (1852-1934). Com sua ambigüidade pungente entre densidade e sutileza, deixou marcas no imaginário das cenas domésticas, de acordo com o estilo pictórico e os anseios de legitimar a fotografia como arte, no início do século XX.

As concepções sobre nudez e erotismo seguiram-se no universo da fotografia… Logo, a trajetória de registrar o corpo iniciou um processo de subjetividade, desprendendo-se do realismo. É preciso perceber que os estilos deságuam inevitavelmente em outras percepções. E assim, ocorreu uma ruptura determinante com relação ao romantismo e à sexualidade na história da representação corporal na fotografia. Chega-se ao surrealismo, movimento que dessacraliza a temática da nudez tornando a idéia do corpo em alegoria e meio para a vanguarda de então.

No entanto, nada é gratuito no que contemplamos, pois o que articula a mise en scène a ser capturada é o desejo de seduzir, de aproximar, provocar os sentidos do outro. A simbiose entre retrato e retratado alinhava uma relação simbólica cuja complexidade invade várias esferas. Ou seja, desde a memória afetiva familiar e doméstica até a vida íntima dos indivíduos. O ato de registrar referenda o corpo como texto discursivo. Há o processo, o conteúdo e a dinâmica metafórica da imagem. Portanto, fotografar o corpo é penetrá-lo na epiderme do espírito e não no banal ou no clichê. O êxtase está no momento e, em algumas imagens fotográficas, nem rosto possuem. O torpor provem da atmosfera imagética. Lembro-me de J.W. Goethe, em “Os sofrimentos do jovem Werther”, que diz: “Falta-me o fermento que agitava, movia a minha vida; desapareceu o encantamento que me mantinha desperto a altas horas da noite, que de manhã me despertava do sono”. Ver um corpo fotografado pode ser isto. Como também, ter a sensação do vigor e do momento feérico entre a captura de um olhar sob o encanto sensível do corpo a sua frente.

PDF do texto:  a epiderme do espirito

Juan Esteves

Maio 3, 2009 by gquintas

Foto: Juan Esteves

Thomaz Farkas, 2005

Dentre os nomes mais significativos de quem escreve, estuda e participa do processo crítico da fotografia brasileira, está Juan Esteves. Na verdade, ele consegue discorrer sobre a liguagem fotográfica com a mesma propriedade com a qual fotografa. Juan é uma grande fotógrafo. Assim como outros que transitam entre o verbo e a imagem, a contribuição de Juan Esteves já faz parte de nossas fontes.

Quando entrevista um fotógrafo, revela-nos filigranas biográficas do entrevistado. Seus textos alinham-se a contextos históricos, sociais e técnicos da fotografia. Uma verdadeira e bela aula. São didáticos, elegantes e ponderados. Trazem sempre considerações importantes, além da profusão de dados, fatos e informações. É como se houvéssemos perdido uma parte da história da fotografia e que ele nos narra com precisão de detalhes.

Quando li sua entrevista no blog Olha, vê, tive a certeza de que se trata de uma testemunho histórico – enriquecedor por suas opiniões e pela lembrança sempre de grandes nomes da história da fotografia. É mais um a nos ajudar a compreender sobre este vasto território reflexivo que é a imagem fotográfica.

Amas de leite e suas representações visuais

Abril 18, 2009 by gquintas

Acervo da Fundação Joaquim Nabuco

Fernando Simões Barbosa com ama de leite
Eugenio & Mauricio
Recife, c.1860-1869

Foi publicado um artigo que escrevi na RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção. A publicação pertence ao
GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções.

O artigo é sobre a presença das amas de leite nas fotografias da aristocracia pernambucana.

Para ler o artigo, tem o PDF neste link.

Frans Krajcberg

Fevereiro 4, 2009 by gquintas

Frans Krajcberg. Escultor e ativista ambiental. Grandioso e comprometido em tudo o que fez e faz através de sua arte. O trabalho de Krajcberg é visceral, engajado, profundo, de uma vida pela vida.

Tenho questionado sobre rupturas no fazer fotográfico, as dinâmicas contempôraneas, o relativismo no caráter da identidade de quem aperta o botão da câmera. Mas também sobre o antes, o depois, o entorno, as associações, os desmembramentos temáticos, a imagem-signo que não é mais absolutamente real e sim propósito, a partilha do ato fotográfico…

O passado (histórico mesmo) e imerso no tempo do surgimento da linguagem fotográfica, a modernidade, a pós-modernidade, a contemporaneidade desvelaram maneiras inquietantes de criarmos através da fotografia. O próprio tempo nos ensina muita coisa e por isso restaurar a memória, o nosso repertório, é um fator de alfabetização de como ampliar o olhar. Vermos o já visto, retomarmos fotógrafos e suas imagens é encontrar as conexões, literalmente, o fio da meada.

E volto ao Krajcberg. Nada mais revigorante do que ouvir palavras contundentes da boca de um homem que vale a nossa atenção. Em novembro de 2008, Frans Krajcberg (em entrevista a Folha de São Paulo, 30 de novembro), ponderou sobre o século 21:

“A arte não entrou ainda neste século. Não abriu a porta. A única arte que entrou no novo século foi a fotografia”.

E disse mais:  “Estou impressionado com a forma como a França acordou, como a Europa está acordando, enquanto a gente dorme bem confortavelmente e não acompanha nada. A arte no Brasil ainda não começou a mudar”.

Assim pensa Frans Krajcberg. Essas são suas palavras que podem nos servir para uma grande reflexão.

A estética do olhar vazio

Dezembro 21, 2008 by gquintas

Na última edição do Pernambuco – Suplemento Cultural, tem uma resenha crítica que escrevi sobre o livro Cadernos Etíopes, do fotógrafo J. R. Duran. O texto me foi encomendado pelo editor do Suplemento, Schneider Carpeggiani.

O PDF do texto: a-estetica-do-olhar-vazio

Uma grande mulher

Novembro 30, 2008 by gquintas

Lee Miller fotografada por Man Ray em 1930

Lee Miller (sentada) fotografada por David E. Scherman em 1944

Lee Miller em 1930 era uma modelo já famosa. Foi namorada de Man Ray e, com ele, aprendeu e começou a fotografar. Anos depois, era fotógrafa de guerra da revista Life.

Sobre o acervo fotográfico da revista Life, clique aqui.


Man Ray no Fotosite

Novembro 22, 2008 by gquintas

O meu livro Man Ray e a Imagem da Mulher - A vanguarda do olhar e das técnicas fotográficas recebeu uma análise do fotógrafo e crítico de fotografia Juan Esteves. Saiu esta semana no Fotosite.

Abaixo, coloco a resenha:

♦Juan Esteves

MAN RAY E A IMAGEM DA MULHER – 19/11/08

Protagonista de vários movimentos artísticos, Man Ray morreu em 1976 quando já estava com 86 anos de idade. Como alguns de seus contemporâneos – Cartier-Bresson (1908-2004) ou Helmut Newton (1920-2004) – que legaram à fotografia os fundamentos que, até hoje, nos esfregam impiedosamente a busca de novidades, este americano da Filadélfia, nascido Emmanuel Radnitzky, não deixou por menos, e além da imagem fotográfica, produziu para cinema, escultura, pintura e literatura.Entre suas imagens, colagens, transformações fotográficas no laboratório, filmes que experimentavam o movimento da imagem fixa, e seus escritos, a antropóloga recifense e professora de fotografia Georgia Quintas foi buscar na imagem feminina gerada por Man Ray, o motivo de sua monografia de conclusão de curso de Pós-Graduação em História da Arte, de 1998, pela Faculdade Armando Álvares Penteado (FAAP-SP). A conclusão foi publicada em livro, com edição da própria autora.

Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca, na região castelhana da Espanha, Georgia Quintas alerta, já na introdução, que manteve o estilo e a estrutura de seu texto original, apesar de se tratar de uma pesquisa acadêmica. Sua idéia é que as informações contidas no livro possam servir a possíveis pesquisadores. Tal modo, na verdade, não interfere na prazerosa leitura, pois seu tema é uma garantia contra o aborrecimento, mesmo com capítulos cujo título menciona “influências sincrônica e diacrônica”, que, convenhamos, não é muito animador para alguém não familiarizado com as articulações acadêmicas.

A pesquisadora alerta também para intervalo de dez anos entre a conclusão e a publicação do livro, motivo pelo qual, para não perder a perspectiva original, a mesma não atualizou a bibliografia. Novamente, em que pese algumas mudanças significativas na arte mundial nesta última década, a análise permanece contundente e muito interessante, e particularmente ao tema, as modernidades da imagem não afetam o conteúdo gráfico ou conceitual do grande artista, cuja produção sempre superou as barreiras dos modismos e outros “ismos”.

Depois de uma breve apresentação do artista, Quintas se encarrega de salientar em sua obra a união da reflexão ao procedimento técnico, bem como, a influência de movimentos como o Dada e o Surrealismo, e suas implicações com o rompimento de certos arquétipos de então. A abordagem se passa na Europa na primeira década do século 20, o que uniria a sua produção a outras vertentes, notoriamente sua amizade com outro artista genial, o francês Marcel Duchamp (1887-1968). A autora se vale de observações do filósofo e crítico de arte Philipe Sers e do professor da Universidade de Paris (Sorbonne Novelle) Philippe Dubois, que alimentam sua digressão.

Ao trabalhar as reflexões do artista sobre pintura e fotografia, surge inexoravelmente – e necessariamente – a idéia atribuída a um de seus manifestos: fotografar o que não se pode pintar e pintar o que não pode ser fotografado. Bem como, declarações que resultaram em pregações, como a rejeição da fotografia como forma de arte verdadeira. A autora cita o artigo de 1943, escrito por ele: “Fotografia não é arte”. Por este viés, os dez anos entre a conclusão da monografia e a publicação deste livro não mudam sua contribuição para uma pertinente discussão imediata.

Associar Barthes e seu Studium (Camera Lucida) a uma cuidadosa e detalhada sintaxe que o artista buscava, revela um cuidado à parte da autora em certas associações, cuja notícia está mais distante do discurso laudatório e mais próxima de uma explicação da gênese de certas semelhanças que podemos encontrar na obra de Man Ray e de seus contemporâneos mais arrojados, como George Braque ou Pablo Picasso. A idéia proposta nos conduz ao reconhecimento do artista não de maneira quimérica, e sim, mais pragmática, sem deixar de vê-lo como um visionário.

Entre exemplos buscados para a representação de Man Ray como alguém que se expressa mais interiormente do que externamente, a autora comenta imagens de Kiki de Montparnasse, Lee Miller, Meret Oppenheim, Coco Chanel e Juliet, a última companheira e modelo do artista. Para a autora, Man Ray faz composições próximas das encontradas ao longo da história da arte, buscando uma idéia de pureza e solenidade, através do olhar e da postura.

Outros detalhes de sua abordagem anotam a simplicidade no jogo entre positivo e negativo de suas imagens e as inúmeras possibilidades que emanam de suas características técnicas, bem como, a utilização da fotomontagem na idéia fashion, outros efeitos, como solarização e efeitos gráficos que remetem a experiências pictorialistas. Para a autora: “O mote principal de Man Ray resumiu-se em adquirir uma arte própria, trabalhando com persistência contra imposições estéticas.”

Outro ponto em favor da autora é trazer alguns pensadores como os italianos Benedetto Croce (1866-1952) e Giulio Carlo Argan (1909-1992) para uma discussão fotográfica, além das figuras carimbadas da Academia como Roland Barthes(1915-1980) e Susan Sontag (1933-2004) que parecem pulular nos tratados nacionais. Também prestigia os pensadores cariocas como o antropólogo Milton Guran e o pesquisador Pedro Karp Vasquez, além do fotógrafo Boris Kossoy e do filósofo Nelson Brissac Peixoto, ambos paulistanos.

À conclusão do livro soma-se o pensamento geral de que a fenda produzida pelo artista é bem funda e até hoje, de certa forma, desnorteia por sua perene contemporaneidade. Também é uma importante sugestão para que nossos acadêmicos comecem a pensar com mais intensidade sobre os equivalentes brasileiros – nossos chamados modernistas – que produziram muito e de maneira sincrônica, sobre a questão da imagem da mulher, e que estão, absurdamente, a merecer amplos e detalhados estudos. Como os demais livros oriundos das academias brasileiras, as ilustrações carecem de qualidade, mas estão na média dos congêneres.

Em suas memórias (Self Portrait Man Ray, Little Brown,1963-Bulfinch, 1998), publicadas treze anos antes de sua morte, o artista se queixava que seus modelos femininos achavam que suas imagens pareciam inacabadas. Man Ray, apesar da incompreensão constante, no entanto, dizia que tinha aprovação de seus pares. Infelizmente essa “autobiografia”, que traz outros pensamentos sobre a questão da mulher, não está na bibliografia anotada, o que poderia ser um plus nesta interessante edição, que sem dúvida leva aos leitores brasileiros mais compreensão sobre um dos mais importantes artistas do século 20.

O que mais fotografar?

Novembro 13, 2008 by gquintas

Foto: Minor White, Windowsill Daydreaming, 1958

Artigo publicado hoje na seção de Opinião do Jornal do Commercio. Também coloco o PDF da página para os interessados em baixar.

PDF: o-que-mais-fotografar_13nov2008

O que mais fotografar? 

         A imagem fotográfica é um jogo de visão de mundo e imaginação. E nisto reside toda a complexidade de quem capta e a apreende visualmente. Pois, se ela é o registro de um tempo e de um espaço, de objetos ou pessoas, será irremediavelmente memória de expressão cultural e de significado simbólico. Ou seja, ela também poderá ser tudo e nada. A dimensão subjetiva da fotografia se dá entre o real e a ficção, entre a realidade visível e a construção de um novo realismo, e tudo isso pode vir a ser muito surreal. Não falo do surrealismo enquanto estilo artístico, mas sim, da realidade movediça que se apresenta concreta enquanto índice visual. O que vemos a partir da imagem são as causas e os efeitos dela própria em nosso olhar.

         Por certo, a fotografia documental reafirma a realidade. Mas não só isso, ao reconduzir o real, uma nova dimensão perceptiva se coloca diante de nós. Sem dúvida, a superfície da imagem é a representação da coisa em si, sua quintessência; entretanto, ela é também, muito além da questão do tempo inerente à natureza fotográfica, intensidade, reciprocidade, atitude, a força do hábito e das idéias de quem faz a imagem fotográfica existir. Se tudo já foi fotografado e o nosso entorno é passível de registro, se as temáticas são recorrentes e os gêneros fotográficos (como o fotojornalismo) inexoráveis, o que fazer ainda através da fotografia?

         A resposta está na autenticidade. Chegar a ela é refutar o lugar-comum, exercitar a experimentação e dialogar com o que já se produziu até então. De modo, que é preciso reconhecer o poder sensível das coisas e dos fotógrafos. Não há nada mais sugestivo e envolvente do que observarmos a subjetividade de criação de quem fotografa. São os estilos estéticos que delineiam a identidade autoral das imagens fotográficas. Nesse sentido, a escolha de um tema e a forma como desenvolvê-la irão criar um repertório de significados para o olhar do outro de maneira mais efetiva, penetrante, ou não. Ao falarmos de estilos, várias foram as perspectivas de apropriação de temáticas comuns aos fotógrafos. Em outros termos: soluções técnicas habilidosas, possibilidades estéticas geniais e poéticas desafiadoras.

         A idéia e a técnica são vetores fundamentais à fotografia, mas há de se pensar em como captar o seu entorno. E para tanto, é preciso ser fiel e autêntico a sua própria acuidade perceptiva e, paradoxalmente, também desconfiar sempre dela. O olhar de quem fotografa tem grande possibilidade de promover armadilhas e banalizar-se, de deixar-se acomodar pela prática e seus mecanismos técnicos. Cabe lembrar que os artifícios da câmera (seja analógica ou digital) são os meios para que seja possível expressar-se através da linguagem fotográfica. O resto é pura consciência crítica e compromisso em desvelar novos caminhos para nossa contemplação. É reconfortante lembrar as palavras do filósofo Maurice Merleau-Ponty: “O espírito do mundo somos nós, a partir do momento em que sabemos mover-nos, a partir do momento em que sabemos olhar”.

         Desde sempre a expressão fotográfica instaurou novos parâmetros estéticos. Na intencionalidade em fotografar, pode-se vislumbrar muitas respostas para isso. Assim, nunca fomos ou seremos onipotentes ao fazer fotográfico. A profusão desta linguagem (seja ela artística, documental ou fotojornalística) revela-se ao transcodificar os signos e convertê-los em algo imperceptível na realidade, reconduzindo esta mesma realidade para o plano imaginário do irreal, improvável e desconcertante. Será nessa nova perspectiva que nos encontraremos. Certo está o fotógrafo Duane Michals quando disse: “Eu sou um reflexo fotografando outros reflexos com seus reflexos… Fotografar a realidade é fotografar o nada”. Sempre foi o momento de surpreender o outro e a si próprio.

Antropofagia: As várias dimensões antropológicas

Novembro 12, 2008 by gquintas

Theodore De Bry | Matando o prisioneiro | 1592

Publiquei um artigo científico na Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. O artigo se chama Antropofagia: As várias dimensões antropológicas.

Para ler o artigo no site da Fênix é aqui. Abaixo, coloco o PDF que contém as imagens.

antropofagia-as-varias-dimensoes-antropologicas

Sofá

Outubro 6, 2008 by gquintas

©Cia de Foto

- “Por favor, pode entrar… Sente-se!”, disse-me uma voz.

Não importa de quem tenha sido esta voz… Só sei que entrei, mas não sentei. Preferi olhar, sentir o espaço, me acomodar de outra maneira.

Havia um simples sofá… Vazio. Sem códigos prosaicos que insinuasse sua utilidade. Apenas um lugar para sentar-se ou colocar-se em estado de letargia. Lugar de espera (delimitado num cômodo doméstico) de que coisas aconteçam, da iminência cúmplice de ser objeto inanimado que presencia a história de certa vida familiar. Repousam apenas: um brinquedo, almofadas ao léu, um saco plástico esquecidos…

Mas aquele sofá me causava certa afinidade. Seria uma espécie de “sofá-símbolo”, imagem inconteste da memória. Do sentar-se para partilhar a vida, ou mesmo para descansar dela.

E fora dos seus contextos domésticos habituais, o que pensar de seu deslocamento espacial? Total sentimento de hiato quando um sofá é visto abandonado na rua e nós, transeuntes, ao olhá-lo perdemos o chão. Surge um incômodo. Torna-se assim, lembrança afetiva de algo que nos representa um significado íntimo, da sua vida, do seu imaginário familiar.

A luz esmaecida que provém daquele sofá “abraça” o olhar, transporta o espírito. A imagem que faço dele é bastante sensorial. Pois, o vazio é apenas paradoxo. O volume de um possível corpo infantil tensiona a composição centralizada (quase claustrofóbica) e a estabilidade matérica do móvel. E não interessa saber quem se esconde. Me inflexiona o volume e suas adjacências – a cena cotidiana de uma família e seus tempos. Não somente o instante que meu olho fixa a imagem. Mas o que se aprisionou nela e a apropriação de quem se relaciona com a cena. Enfim, dos sentidos sublimados pelo sofá e do volume nonsense de um corpo de criança velado por ele.

Não significa muito se entrei naquela suposta sala, se meu corpo vivenciou. O valor, como diria o fotógrafo Brassaï, está na autenticidade do instante. A fotografia impregnada do outro passa a ser minha e de meus sentidos. Imagem é alteridade e só será percebida por quem queira vê-la. O fator essencial para tudo isso é sentir, não só pela visão. Mas, sobretudo, de ir mais além. Como no meu caso, de ouvir a voz do meu arcabouço simbólico e entrar silenciosamente (respeitando o tempo do meu olhar) pela atmosfera rarefeita de um singelo sofá.